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Uma habilidade para herdeiros

Vida

            Na infância, e até boa parte da minha adolescência, eu acreditava no talento. Não sabia ao certo como funcionava, só achava que algumas pessoas ao meu redor tinham um “algo a mais” que eu não tinha, ou melhor, até tinha, mas com o tempo isso foi perdido. O esforço de cada um ficava invisível. Bom, nessa fase, a gente não questiona muito e acaba aceitando o primeiro pensamento que aparece, concluindo que fulano é bom porque nasceu com uma habilidade inata para aquilo que faz com excelência.

         Sabe, sempre me frustrei ao pensar que meu único "dom" era mexer com computadores, porque, de alguma forma eu conseguia resolver problemas que ninguém ao meu redor sabia sequer por onde começar, mas desprezava completamente as horas que passava vendo tutoriais na internet, quebrando a cabeça, explorando pastas, testando configurações, que por muitas vezes davam errado. Chamava de “dom” o que, na verdade, era prática silenciosa e constante de errar, consertar e repetir.

         Na escola aconteceu algo parecido. Apesar de ter reprovado algumas vezes, lembro que, por um bom tempo, as matérias eram estupidamente fáceis. E, como nada me desafiava, fui deixando o estudo básico de lado, o que, inevitavelmente, cobrou a conta mais tarde.

         Desde pequeno, fui movido pela vontade de entender o porquê das coisas. Desmontava brinquedos eletrônicos, ventiladores, computadores tudo que despertasse minha curiosidade eu abria, entendia seu funcionamento e, por muitas vezes não conseguia montar novamente, assim, acabava sendo punido com frases como: “Você é um destruidor, moleque” ou “É impressionante como nada fica inteiro na sua mão”. Bom, não preciso dizer que, aos poucos minha curiosidade foi sendo deixada de lado junto com o meu próprio jeito de tentar entender o mundo. Lembro-me que, ainda na infância, tentei aprender programação através de fóruns na internet e mais tarde, iniciei um curso de PHP no PREPARA (ironicamente, a linguagem que hoje paga meu salário), mas sem apoio, acabei desistindo do curso também.

Era engraçado sabe? Na infância me destacava por programar mesmo sem instrução formal. Conseguia fazer coisas que muitos adultos ao meu redor achavam complexas demais. Mas, com o tempo, a falta de incentivo e motivação foi apagando aquilo que parecia ser uma chama natural. Aquela curiosidade genuína foi morrendo, e eu fui me tornando exatamente o que tantos apontavam com o dedo.

Assim, com o passar dos anos, passei a buscar atalhos, numa mistura de falta de apoio e curiosidade sufocada, comecei a tentar “ser esperto” para recuperar o tempo perdido, usava cheats em jogos, trapaceava no trabalho para vender mais, e até nos estudos pegava cola dos colegas de classe para tirar uma nota melhor. Acreditava que o resultado justificava os meios, vencer no jogo, vender mais e passar na prova era mais importante do que o processo de construção até atingir o objetivo.

Quando cheguei à fase adulta, descobri minha depressão e dificuldades de aprendizagem. Ao me dar conta de tudo aquilo que havia passado, começava um processo interno doloroso, me sentia um verdadeiro lixo. Via meus amigos e colegas progredindo, construindo vidas, e eu... Bom, eu me via preso, como se ainda estivesse na quinta série. Por algum motivo tinha uma vontade imensa de voltar a escola, me sentar de novo naquela sala de aula e, independente da minha idade, com a humildade mais pura do mundo, pedir para que me explicassem tudo outra vez, para que eu, agora adulto, me permitindo errar centenas de vezes e se sem ter qualquer tipo punição, pudesse apreender desde o início tudo aquilo que um dia foi curiosidade genuína de uma criança, e poder alimentar aquela curiosidade e, em um futuro me tornar tudo aquilo que sempre sonhei quando criança, mas que na minha infância, com uma mente confusa e uma vida familiar instável, foi não foi possível aprender.

Nesse momento, iniciando minha maior idade, percebo que os atalhos que havia tomado, em uma tentativa de recuperar o tempo perdido, apenas tampavam os buracos de maneira superficial, mas não alimentavam minha alma, me impediam de construir algo sólido e duradouro. Era como se tudo fosse um castelo de areia próximo ao mar, que, em algum momento, por falta de uma solida base, tudo iria ruir.

Lembro-me que, por volta dos meus 18 ou 19 anos, conversando com um amigo que estagiava junto comigo questionei:

— Cara, como você faz pra ser bom em tudo?

E ele respondeu:

— Eu não sei... Eu só sou curioso.

Foi ali que percebi, que diferente de mim, algumas pessoas se privilegiam da nobre arte de poder errar, e que eu, no início da minha maior idade, e, se quisesse ir atrás daquilo que eu realmente ansiava desde pequeno, teria que errar, e errar muito...

Bom, foi ali que tudo começou a fazer sentido, foi ali que me dei conta de que se eu tivesse seguido minha intuição, alimentado aquela curiosidade natural da infância, tivesse tido apoio ou talvez ignorado tudo ao meu redor, talvez hoje estivesse fazendo coisas incríveis não só profissionalmente, mas que me dariam uma satisfação pessoal, orgulho, e talvez até paz.